LISBOA, 1 DE FEVEREIRO DE 1908

LISBOA, 1 DE FEVEREIRO DE 1908 
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O regicídio visto por Aquilino Ribeiro.

 

«Pelo que me contou dias depois Humberto de Avelar, pelo que eu sabia, pelo que apurei do relato dissonante das gazetas e o que eu rectifiquei in loco com um dos conjurados e um falso regicida, que para o caso também conta como havendo elaborado do sucesso a síntese mais verosímil que convinha ao seu papel, os factos deviam ter-se passado deste modo: Debalde o grupo fora esperar João Franco à Rua Alexandre Herculano. O ditador, sabendo-se em perigo e acossado de um lugar para o outro, entrou mais uma vez a negacear com os perseguidores. Não lhe era difícil, dispondo dos órgãos de informação e torcendo-lhes as voltas. Os seus vários domicílios permitiam-lhe este jogo do Escondidinho.

Depois deste primeiro desencontro, havendo abancado momentaneamente no Gelo, onde viram que o Buíça se refrescara com um bock, acariciando muito a barba com reflexos de cobre, o que era sinal de tempestade interior, e, mais ainda, encravando repetidamente a mandíbula de baixo sob o lábio superior, gesto tão seu, e Alfredo Costa engolira um almoço apressado, sempre febril, passaram ao Rossio, a grande sala revolucionária, e aí deliberaram em comum ir esperar Franco ao Terreiro do Paço, à hora do regresso da Família Real. Para Costa, já fazia parte do programa, dada a hipótese de o golpe falhar na rua para onde Franco anunciara ter mudado da Rua da emenda. Isoladamente, os homens dos Olivais atrás, e par a par, se dirigiram com boa meia hora de antecedência para o Terreiro do Paço. Escalonando-se pela praça, Alfredo Costa tomou a posição do fundo, próximo do embarcadoiro, os três ficaram a deambular ao meio, da estátua de D. José para o centro da ala ocidental contra as arcadas, como ociosos, e Buíça postou-se na fímbria norte, não bem sobre o lancil, mas perto ou encostado ao candeeiro, na linha do prolongamento da Rua do Ouro, na atitude de indivíduo que espera outro, conforme entrevista marcada.

Constava do seu plano aguardarem ali João Franco, como caminho necessário para os cais. Cada um deles era sete olhos para quem entrava na praça, particularmente pela faixa ocidental, e ainda para a rua que a contorna do lado do Tejo. E o tempo foi voando e João Franco sem aparecer. Refere Rocha Martins que ele deslizara sorrateiramente por baixo das arcadas, sem que os conjurados o vissem, o que é de todo inaceitável, dado que era precisamente sobre esse trajecto que eles mais assestavam os olhos. Não, sorrateiramente tinha ele entrado pelo portão do Arsenal e daí transitado ao embarcadoiro, palmilhando de relâmpago o curto espaço a descoberto que dá acesso pelo sul ao Pavilhão da Marinha. O facto é que se lhe esgueirara mais uma vez, como homem experimentado em batidas nos matagais do Alcaide.

Entretanto, Costa e Buíça fartavam-se de bocejar. Só quem conheceu o génio de um e de outro pode imaginar qual seria o seu enervamento. Passaram por diante deles o landau com os dignitários, ministros, gente a pé, o major Dias, agentes da Secreta a avaliar pelos meneios artificiosos com que armavam em pessoas despreconcebidas, cortesãos ou funcionários públicos destacados à chegada da Família Real. E, por fim, uma sereia estrugiu, anunciou a chegada do rei com fragor lançando à serenidade da tarde, cerca da ponte de desembarque, a ronca marinha, amassada, dir-se-ia, de água salgada, aventura oceânica, gaivotas, ondas, e as tágides que escaparam às dragas do senhor Hersent. Alfredo Costa acercou-se mais da embocadura, que ali fazia a muralha do cais e o Pavilhão. Domingos Ribeiro pairava a distância, pronto a transmitir qualquer palavra aos outros conjurados.

Apareceu, depois de grandes delongas, que mais agravaram a hiperestesia dos conjurados, em daumont, a Família Real, os reis lado a lado, os príncipes em frente. Seguiu-se o carro com os camaristas, em vez do de D. Afonso, que se atrasara. E, no seu ritmo, os dos áulicos, e toda a cauda cometária de palacianos. E João Franco? João Franco sumira-se novamente como um trasgo.

Desesperado com o malogro, mas ainda retido por um resto de expectativa, a que é vulgar atribuir-se a escrúpulo de consciência, Alfredo Costa chegou de dois passos ao pé de Domingos Ribeiro:

– Corra lá acima dizer ao Buíça que o filho dum cão tornou a escapar-nos…

Isto dizendo, voltou ao seu posto de atalaia, perto da muralha, a espiar a lufada de pessoas que irrompia da estação flutuante. Mas, ou porque o esporeasse a impaciência ou no seu espírito se desse por inútil continuar de atalaia, largou a grandes passadas pelo terreiro da praça acima, coisa de dois a três metros à banda do lancil. Ultrapassou primeiro o landau real, aberto, que avançava a pequeno chouto, depois o rapaz que levava o recado. E dum pulo estava ao pé do Buíça, engoiado no gabão, no jeito inteiriço de homem muito crispado por uma ideia fixa, e repetiu a mensagem:

– O filho dum cão escapou-se!

Decorreu um brevíssimo silêncio, o tempo de a descarga eléctrica da frustração percorrer os nervos de Buíça. Entretanto, aproximaram-se os outros três conspiradores, persuadidos que não havia mais nada a fazer do que porem-se a «cavar». Mas Alfredo Costa, fixando o olhar em Buíça, tornou:

– E agora?… Se liquidássemos a cambada?

O carro aproximava-se lento como a gozar a doçura da tarde, os cavalos percutindo a calçada a chouto vagaroso. Buíça, desencostando-se do candeeiro, respondeu:

– Vamos a eles!

Fez um gesto a indicar a posição que ia tomar. Costa soprou para os três:

– Defendam-nos a retaguarda!

 

Já Buíça, de um salto, se plantava, em diagonal para a carruagem, a um terço da largura da rua, hirto como um atirador; sacudia para trás as abas do capote e, metendo a carabina à cara, visava. Alfredo Costa, por sua vez, caía sobre a carruagem que passava na sua frente. Foi mais rápido do que se conta. Crepitou o tiroteio das armas de fogo e no primeiro minuto os assaltantes ficaram donos do terreno. Mas o oficial que galopava à estribeira, tenente Francisco Figueira, recobrando-se, precipitou-se à espadeirada sobre Buíça. A polícia, perante a sua acometida, ressarciu-se também e rompeu a disparar a torto e a direito sobre os vultos que se lhe afigurou fazerem parte da conjura. Dois agentes, quando Alfredo Costa cambaleava, lançaram-lhe a mão, e ao passo que o arrastavam para a esquadra, iam disparando os revólveres sobre ele, refeitos em seu domínio. Buíça continuava a estrebuchar com a carabina, acutilado pelo oficial às ordens, e tentando desenvencilhar-se dum soldado que se lhe viera meter nas pernas.

D. Carlos tinha caído cerce como um roble, debaixo por certo das balas de Buíça, e igualmente o Príncipe alvejado à queima-roupa por Costa. Então a carruagem real largou à desfilada, seguida pelas outras, tomadas de terror. Mas a refrega decrescia. O terreno quedava às forças da ordem. Um guarda civil de revólver em punho gritava como num fim de montaria:

– Já matei um!

De facto tinham fuzilado às cegas, contando-se entre os mortos um caixeiro de 17 anos, que passava, e ferido vários transeuntes. Muitos dos mirones que se encontravam na praça, curiosos acidentais, foram arrebanhados para a esquadra, que fica entre as traseiras da Câmara e o Ministério do Reino, e passaram as piores horas da vida. Viram os polícias espezinhar os dois regicidas e de novo esfoguetearem-nos à bala; depois, voltaram-se para eles. O chefe do Posto interpôs-se. Parou ali a ameaça sobre as pessoas filadas ao acaso da mão.»

 
Aquilino Ribeiro, Um escritor confessa-se, Lisboa: Bertrand Editora, 2008, pp. 268-272

 

 
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